entrevista

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS: A CHAMADA "AJUDA AO DESENVOLVIMENTO" É UMA FARSA

19 de fevereiro de 2021

Entrevista ao Professor Boaventura de Sousa Santos*

Kutala Angola: Professor, sem mais delongas, gostaria de agradecer por este contacto. É alguém que tem uma intervenção pública e política como intelectual. Mas o modo como intervém neste quadro é muitas vezes alvo de críticas, sobretudo por parte daqueles que defendem uma postura mais complacente e levantam a “bandeira” da neutralidade axiológica dos intelectuais no que diz respeito a política. Qual é a sua visão sobre a intervenção do intelectual, do acadêmico, na política, seja a nível do debate político como da prática política?

Boaventura de Sousa Santos: Há um debate na epistemologia e na teoria da ciência sobre as relações entre objectividade e neutralidade. Uma corrente que se designou por positivismo tentou igualar a objetividade com neutralidade. Ou seja, o cientista social ou natural deveria ser objectivo e, por isso, neutro. Esta concepção que durante muito tempo dominou está hoje completamente ultrapassada, e embora persista em alguns países ou em alguns sectores, é reconhecida como epistemologicamente errada e politicamente perigosa. Primeiro, o que é a objetividade? A objectividade  nas ciências sociais significa o controlo da subjectividade, dado o ponto de partida do valor e do sentido em cada objecto de estudos nas nossas áreas. O controlo da subjectividade dá-se pela observância competente e de boa-fé das metodologias que as ciências sociais têm vindo a construir. Isto sem nunca prescindir de contribuir para a criação de novas metodologias que não só aproveitem ao máximo os recursos tecnológicos de que hoje dispomos mas que também se adequem às novas exigências que a sociedade nos põe e que na minha opinião vão no sentido de criar mais aproximação consciente do que distância inconsciente dos limites. É por esta razão que tenho vindo a insistir em metodologias mais participativas. Não há verdade em ciência, mas a busca da verdade. A neutralidade é uma coisa completamente diferente. É a questão de saber de que lado estamos. A objectividade não nos dispensa de responder a esta questão. Pelo contrário, exige que lhe prestemos especial atenção, dado o valor social do conhecimento de que dispomos. As sociedades são hoje atravessadas pelo sofrimento injusto provocado por desigualdades, discriminações e exclusões que decorrem da distribuição muito desigual  do poder económico, social e político. Nos seus trabalhos, o cientista social não pode furtar-se a tomar posição perante as condições sociais e políticas da realidade que se analisa. Cabe-lhe posicionar-se do lado dos opressores ou dos oprimidos. Se nos recusarmos a enfrentar esta questão ou negarmos admitir que ela existe, corremos e risco de optar ingenuamente pelo lado dos opressores, dado o domínio que eles tem sobre a opinião pública e o senso comum. A objectividade é assim muito distinta da neutralidade. Os cientistas sociais devem ser objectivos, mas não podem ser neutros, e os menos neutros são aqueles que de boa ou má fé se consideram ou afirmam como tal. Estou consciente de que é mais fácil afirmar esta distinção do que praticá-la. É necessária uma permanente vigilância epistemológica e nem sempre estou seguro de a exercer plenamente. Reconhecer isto é mais honesto do que pretender que ela não é necessária porque as nossas metodologias nos salvaguardam de qualquer inferência de valores.

Numa sociedade extremamente desigual dizer: “Eu sou neutro. Não tomo posições nesta questão” é estar, obviamente, do lado dos opressores. Se vejo pessoas a passar fome e digo: “Bem, não tomo posição os entre ricos, os corruptos e os pobres”, eu estou obviamente a legitimar a ordem política e social criada para os corruptos e os ricos. Não tomar posição é epistemologicamente impossível e é politicamente uma farsa perigosa que, infelizmente, muitos cientistas sociais procuram ainda seguir.

 

Kutala Angola: Marx dizia que não basta compreender e explicar a realidade, mas acima de tudo é necessário mudá-la radicalmente. A sua abordagem sobre as Epistemologias do Sul é de alguma forma uma maneira de emancipar o Sul Global pois apresenta-o como uma entidade cognoscente que tem as suas formas específicas de perceber a realidade e não um conglomerado de incivilizados que precisam da orientação Ocidental. O professor é um intelectual público, um académico influente, como é que acha que a sua teoria terá mudado ou de alguma maneira influenciada a relação entre África e Europa?

Boaventura de Sousa Santos: Eu penso que de facto hoje – e desde sempre de alguma maneira — houve a necessidade de compreender para transformar. Pelo menos naquele pensamento crítico em que eu me filio. Esse pensamento crítico reconhece as desigualdades e as injustiças da sociedade e não as naturaliza, não as toma como um dado inevitável, irreversível e incontornável. Pelo contrário, considera que elas são superáveis porque assentam em relações sociais, relações de poder que podem ser transformadas. Em todos aqueles que pensam dessa forma, existe sempre uma tensão entre compreender e transformar. O problema é: Qual é o conhecimento a que se recorre para compreender para com base nele poder depois transformar?

O conhecimento dominante desde o séc. XVII tem sido basicamente a ciência moderna eurocêntrica porque foi produzida durante muito tempo, fundamentalmente na Europa e depois no Norte global. Globalizou-se com o sistema universitário em todo o mundo e muitas universidades e centros de pesquisa no Sul global adotaram as mesmas teorias, metodologias e categorias que tinham sido produzidas no Norte global. Isso aplica-se tanto ao marxismo quanto ao funcionalismo e o estruturalismo. Aplica-se a todas as teorias. O recurso a um modo de conhecimento único criou uma enorme injustiça cognitiva no mundo, condenando ao esquecimento e muitas vezes ao epistemicídio uma enorme diversidade de conhecimento do mundo.

Ora, nós sabemos que as populações do mundo vivem a sua vida  com base nos conhecimentos que recolhem nas suas comunidades, suas terras, nas famílias, no seu trabalho. Não é um conhecimento científico, mas é um conhecimento com que dão sentido a vida. E muitas vezes este conhecimento nasceu nas lutas que tiveram que travar para lutar contra injustiça, contra a opressão colonial, contra o racismo, contra o sexismo, contra a ocupação das suas terras, contra a expropriação das suas riquezas.

Por outro lado, o conhecimento eurocêntrico foi sempre um conhecimento que esteve ligado a uma estratégia de poder. Este poder foi o poder capitalista, colonialista, desde o séc. XVII até hoje. Porque o colonialismo não terminou com as independências. Ele continuou sob outras formas, como o colonialismo interno ou o imperialismo, assumindo formas  de interferência que continuam hoje a fazer o que o colonialismo sempre fez: extrair os recursos naturais das colónias dos países do Sul global e apropriar-se da mais-valia que é criada nestes países. Como no período colonial, também hoje as transferências do Sul global para o Norte são muitas vezes superiores às transferências de valor do Norte para o Sul. A chamada “Ajuda ao Desenvolvimento” é uma farsa. Temos que tentar remediar esta situação, encontrar outras formas de conhecer com e não conhecer sobre. Eu sou um cientista social, o Hotalide também é um cientista social. Reconhecemos que a ciência é um conhecimento válido, mas não é o único, há outros tipos de conhecimentos válidos que têm que ser validados pelos seus critérios e trazidos à discussão porque os conhecimentos na ciência moderna viram sempre a realidade a partir do centro do mundo, a partir dos países ditos desenvolvidos. A própria ideia de desenvolvimento insere-se no arcabouço ideológico da colonização, uma vez que na época da criação deste conceito existiam apenas cinco ou seis países desenvolvidos. Logo, os restantes eram subdesenvolvidos, de acordo com esta visão eurocêntrica. E isso implicava também a desvalorização da religião, da história, da cultura, das instituições e do direito dessas nações ditas não desenvolvidas que foram assim colocadas no lado errado da História.

É necessário reverter esta situação através de outras formas de conhecimento e é isto que eu chamo “Epistemologias do Sul”.[1] Estes conhecimentos são conhecimentos populares, rurais, urbanos, dos movimentos, organizações, cooperativas ou grupos sociais que se têm mobilizado para lutar pela justiça social nos seus países contra a opressão, a dominação, seja ela no mundo do trabalho, na família, na rua, na política ou no espaço público. As Epistemologias do Sul não são anti-ciência, elas reconhecem a validade da ciência. Mas o que dizem é que a ciência não é o único conhecimento válido e tem que saber conviver, escutar, conversar com outros conhecimentos que lhe trazem outra compreensão do mundo e da vida. Podemos dar muitos exemplos de como os conhecimentos, os conceitos que servem de base à ciência não são partilhados pela grande maioria das pessoas por várias razões. Por exemplo, o conceito de natureza que os cientistas concebem como recurso natural, se falar com os camponeses de Angola ou aqui em Portugal, é claro que não vêm as suas terras apenas como um recurso. Os camponeses dependem da terra. É uma terra que é a ‘terra mãe’, como dizem os povos indígenas da América Latina. Eles pertencem a terra. Não é a terra que lhes pertence. Têm que cuidar dela, administrá-la bem. E por isso têm uma concepção da natureza distinta daquela que domina as ciências sociais e a ciência moderna em geral.

 

Kutala Angola: Professor, lançou no ano passado um livro que trata sobre a pandemia da COVID-19. Gostaria de saber, no seu ponto de vista, como é ela pode influenciar ou como é que influenciou a relação entre o Norte e o Sul Global mais concretamente entre África e a Europa?

Boaventura de Sousa Santos: Eu penso que a Europa tem uma dívida histórica extraordinária para com os povos que colonizou e que ainda não reconheceu. Em Portugal, por exemplo, os portugueses ainda não foram capazes de descolonizar a sua história, ainda não souberam fazer um julgamento dos crimes do colonialismo, ainda não conseguiram fazer o juízo político do próprio fascismo, que foi o período final do colonialismo no contexto português. E por isso, não se conciliaram com a sua própria história porque não a conhecem, porque reprimem este lado mais obscuro, mais terrível da história de Portugal do séc. XVII até aos nossos dias. Enquanto isso não for feito, é impossível que haja um entendimento entre África e os antigos colonizadores, sejam os portugueses, espanhóis, ingleses, franceses ou mesmo alemães e italianos – ainda que estes dois tivessem uma presença em África menor que os outros. Eu penso que para se poder criar uma cooperação, as relações deveriam ser completamente diferentes. A pandemia poderia ser uma grande oportunidade. Porquê?

Porque a pandemia ocorreu em todo o mundo, afectou a todos, mas não da mesma forma. O vírus é caótico, mas não é democrático. Quem morre são fundamentalmente as pessoas empobrecidas, vulnerabilizadas pelas pandemias anteriores da fome, da brutalidade policial, da falta de acesso a saúde, do analfabetismo, da falta de habitação. Terá havido muitas pandemias antes desta e as pessoas mais atingidas são as que vivem as outras pandemias. Mas esta de alguma maneira dramatizou a ideia de que somos todos parte do mesmo mundo onde o vírus circula caótica e imprevisivelmente. Por isso, a pandemia poderia ser uma oportunidade para que criar um entendimento verdadeiramente pós-colonial das relações entre África e Europa.

Por exemplo, no caso das vacinas, a Europa está muito preocupada que seus cidadãos tenham acesso a elas. Mas a sua política não foi de maneira nenhuma no sentido de o continente africano, com o qual a Europa tem uma dívida muito especial e histórica, tivessem também acesso. Porque sabemos, aliás, até por uma razão egoísta, que enquanto não estiver o mundo todo vacinado, ninguém está seguro. Ora bem, nada disso aconteceu. Eu tenho vindo a lutar no movimento pelas vacinas como um bem público universal, com a eliminação e neutralização dos direitos de patente que neste caso concreto são aqueles que elevam os preços das vacinas. Mas ao invés disso, estamos a assistir a uma guerra das grandes empresas farmacêuticas na disputa do mundo. A vacina passou a ser o novo ouro líquido depois do petróleo. Infelizmente não estou a ver que esta oportunidade esteja a ser aproveitada como poderia.

 

Kutala Angola: Professor, o governo do Madagáscar havia apresentado um remédio contra o COVID-19 designado COVID-ORGANICS, mas não houve um interesse profundo das grandes farmacêuticas mundiais. Acha que isto é um demonstrativo da ainda subalternidade de África no mundo?

Boaventura de Sousa Santos: Sem dúvida. Estou ao corrente deste problema. Aliás, no livro que escrevi e que acaba de ser publicado aqui em Portugal pelas Edições 70 e no Brasil pela Editora Boitempo, intitulado “O futuro começa agora: Da pandemia a Utopia”, eu dedico um capítulo à questão da ciência durante esta pandemia e aí mostro exactamente como este remédio, que tem sido desenvolvido em Madagáscar e decorre de conhecimentos ancestrais daquele país, aumenta a imunidade contra o vírus. A COVID- ORGANICS não foi ainda reconhecida, apesar da Organização Mundial da Saúde (OMS) ter dito que examinar atentamente esta questão, acrescentando que ela deveria ser validada por critérios científicos. Isto normalmente, na linguagem cifrada da OMS, significa que será sujeita a algumas melhorias que levem a que as patentes sejam geradas por quem faz estas melhorias... que são as empresas farmacêuticas. E por isso, não será Madagáscar nem África a ganhar com estes medicamentos, mas as grandes empresas farmacêuticas, as quais neste momento estão interessadas sobretudo na vacina, e não em retrovirais como este produto.

 

Kutala Angola: Como é que o fortalecimento de políticos e partidos políticos de extrema-direita na Europa pode condicionar ou desenvolver as relações entre Europa e África? Já agora, quais são as suas perspectivas sobre o futuro da relação entre a Europa e África?

Boaventura de Sousa Santos: Eu penso que as perspectivas não são actualmente muito animadoras. Nunca foram pelas razões que acabei de referir. Não quer dizer que não haja muitas relações horizontais positivas, que apesar de tudo, se tem realizado. Antes do 25 de Abril de 1974, durante o colonialismo, eu não podia ir a Angola ou Moçambique porque somente os fascistas da confiança do governo tinham autorização. No entanto, a partir de 1976, sobretudo a partir de 1980, pude ir a Angola, Moçambique e Cabo Verde, onde naturalmente desenvolvemos uma parceria totalmente horizontal de reciprocidade e de interesse comum na construção das Ciências Sociais. E foi muito cedo no caso de Angola. Eu fui colega aqui na Faculdade de Direito em Coimbra de um dos primeiros ministros de Angola, o Diógenes Boavida, que foi ministro da Justiça e sou também amigo e admirador de Manuel Rui, um grande escritor angolano, que também estudou em Coimbra comigo.

Ao longo dos anos temos desenvolvido relações de muita parceria, nomeadamente produzimos em colaboração com colegas angolanos, três livros sobre a justiça em Angola, sobretudo na região de Luanda, que estão disponíveis.[2] Não sei se os jovens angolanos os conhecem. Podemos tentar torná-los mais disponíveis, colocando este trabalho em linha para facilitar o acesso. Em Moçambique e Cabo Verde, a mesma coisa. São possíveis relações deste tipo e temo-lo feito com muitos colegas do continente. Não vou citar nomes porque posso esquecer algum ou alguns, mas temos tido muitas relações científicas profícuas provando que este tipo de relacionamento é possível. O problema é quando estamos a falar da relação entre Estados e outros actores políticos, entre blocos. Aí não me parece que tenha havido melhorias significativas. Muda a retórica, mas a prática, como estamos agora a ver com a vacina, não muda.

A extrema-direita só veio agravar a situação. Como sabem a Europa hoje é um continente muito diverso. Em Portugal temos uma população de origem em países africanos muito forte e não só nós, mas praticamente todos os países da Europa. A extrema-direita é racista. Proclama o ódio político, glorifica a violência política em geral e também o ódio racial. Aqui em Portugal temos tido vários acidentes que inclusivamente resultaram na morte de alguns jovens negros em Lisboa.

E a extrema-direita neste momento está a crescer em Portugal com um partido chamado CHEGA. Este tem vindo a assumir uma lógica racial e embora afirmem que não são racistas, todo o seu discurso se centra na ideia de que as minorias estão a viver à custa dos portugueses, à custa do orçamento. E isto é exactamente o mesmo que diz toda a extrema-direita na Europa. O que não facilita de maneira nenhuma a relação entre os nossos continentes.

 

Kutala Angola: O professor vive e leciona num determinado período do ano nos Estados Unidos da América. Não sei se está neste momento em Portugal ou nos Estados Unidos. Mas gostaria de saber como é que encara a atual situação política deste país? O que é que o mundo pode esperar de Joe Biden?

Boaventura de Sousa Santos: Há 35 anos que passo cerca da metade do ano, quase 5 meses, nos Estados Unidos onde tenho actuado como Professor, continuo ligado à Universidade de Madison, Wisconsin. Mas desde 2020 estou em Portugal, confinado. Aliás, numa aldeia perto de Coimbra. Acompanho de perto a situação norte-americana. Joe Biden procura de alguma maneira uma manutenção de certo status quo democrático que a meu entender será cada vez mais frágil. Precisamente porque o Trump é uma coisa e trumpismo outra. É praticamente impossível gerir o mal-estar numa sociedade extremamente fracturada, fragmentada, racista e desigual. Uma democracia deve significar um bem relativo para todos e não apenas para alguns.

Não espero grande coisa de Joe Biden. Penso que pode ter algumas vantagens internamente, mas obviamente o imperialismo dos Estados Unidos vai manter-se, e em África, a sua posição vai ser reflexo do incremento da guerra fria com a China que está hoje muito presente no continente africano. Aliás, mesmo alguns países europeus tem neste momento que optar entre os Estados Unidos e a China em questões de tecnologia. Portanto, preparemo-nos para tempos difíceis que em meu entender não vão ser mais fáceis pelo facto de Joe Biden estar no poder.

 

Kutala Angola: O professor esteve em Angola em 2017, no ano das eleições gerais em Angola na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, num evento que tive o prazer de acompanhar a sua intervenção, onde entre outras posições relevantes, referiu que “o neoliberalismo tem cortado as reformas sociais”. Em Angola nós temos um presidente que tem uma agenda reformista, tendo uma aproximação marcante com instituições neoliberais, tais como o Banco Mundial, o FMI… Portanto, Professor, considera que será possível João Lourenço fazer reformas sólidas tendo em conta esta situação?

Boaventura de Sousa Santos: Eu não falo propriamente de pessoas. Como sociólogo analiso mais os processos sociais e políticos e também tenho muito respeito por Angola e pelos angolanos. Tenho acompanhado a situação, mas obviamente, não tão de perto como acompanhei no passado, sobretudo quando estávamos aí a trabalhar. Mas o que lhe posso dizer é que, em geral, entre o neoliberalismo e as políticas sociais, há praticamente uma antinomia. Porque quem está com o Banco Mundial ou com o Fundo Monetário Internacional não tem condições para produzir políticas sociais porque as receitas do neoliberalismo que dominam o Banco Mundial criam uma liberalização da economia que não permite nenhum tipo de proteccionismo, não permite uma tributação justa dos mais ricos, ou um certo controlo nacional das mais-valias que são extraídas dos recursos.

Devido a estes condicionamentos, a única maneira de poder realizar políticas sociais é através do endividamento, já que a tributação é praticamente impossível. E o endividamento implica cair na mão do capital financeiro, já que as dívidas têm que ser pagas, e os juros não são determinados por Angola, nem sequer pelos credores, são determinados pelas agências de dotação do crédito. Angola por todas as razões terá que pagar juros elevados. Estes endividamentos conduzem os Estados à banca rota se gastarem muito dinheiro com educação, com saúde, com infraestruturas, etc.,  e é aí que as políticas falham.

Normalmente não falham tanto nas políticas belicistas, no armamento porque as grandes empresas do Norte global estão sempre interessadas em vender armas e armamentos aos países da periferia a preços que são uma verdadeira extorsão. O fracasso das receitas do Fundo Monetário Internacional aliás está provado, os próprios analistas do Fundo Monetário Internacional têm hoje consciência disso.

Mas o facto é que não existe uma vontade política de assumir todos os erros que se cometeram. Em África, nomeadamente na Tanzânia, cometeram erros horríveis que levaram o país praticamente à ruína. Mais tarde pediram desculpas alegando que se tinham enganado, mas não compensaram. Pedir desculpa é fácil, recompensar, reparar o dano é muito difícil. Estas instituições nunca reparam os danos que causam e isto é preocupante.

Precisamos de uma nova ordem internacional que não seja dominada pelo Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional, mas por outras organizações das Nações Unidas assentes na solidariedade internacional, como as que existiam antes do sistema de Bretton Woods ter sido completamente controlado pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional.

 

Kutala Angola: Neste ano começam as vacinações em massa na maior parte dos países ocidentais e também nalguns africanos, como é o caso de Angola. Como é que perspectiva o mundo pós-pandemia? Quais serão as principais mudanças?

Boaventura de Sousa Santos: Eu penso que não podemos falar muito da pós-pandemia. Neste livro que acabei de publicar eu digo que a pandemia marcou vai marcar o séc. XXI e vai ficar connosco sob outras formas. Certamente iremos entrar num período de pandemia intermitente. O vírus é controlado, encontra-se uma vacina. O vírus é mutável, certas mutações são controladas, outras não. Outros vírus vão surgir, porque o grande problema está na nossa relação com a natureza. Hoje estamos conscientes do aquecimento global, e da crise ecológica e ambiental. O aquecimento global está a provocar as alterações nos habitats dos seres humanos e dos animais selvagens, o que faz com que os vírus circulem e acabem por infectar também os seres humanos, como aconteceu com a nova variante do coronavírus, ou com a encefalopatia espongiforme bovina (EEB), vulgo, doença das vacas loucas, etc. Este período de pandemia intermitente vai obviamente obrigar a muitas alterações que podem ter uma solução positiva ou solução negativa. Ou o Estado investe mais na saúde dos cidadãos, no bem-estar, na saúde pública, ou então vamos ter muita repressão, muita agitação social, muita turbulência social.

A pandemia pode ser uma oportunidade para investir em novas políticas sociais, mais positivas e mais democráticas. Se esta oportunidade é perdida ou não depende do país, depende dos cidadãos, dos jovens, dos actores políticos, depende de muitos factores.

 

Kutala Angola: Professor, muito obrigado, nós estamos na fase final da entrevista. Eu gostaria de fazer mais uma pergunta. Não tem necessariamente a ver com o tema estamos aqui a tratar. É um académico muito prolífico e experiente. Eu gostaria que deixasse uma palavra para os jovens angolanos (africanos em geral) que queiram começar a sua carreira académica. Quais são os conselhos que deixa?

Boaventura de Sousa Santos: Tenho tido muito contacto com os jovens nos últimos anos, para a sua surpresa. Os jovens com quem eu tenho contactado inclusivamente do seu país, Angola, não são académicos, são rappers. O mesmo sucede com os jovens moçambicanos, e também trabalho bastante com rappers na América Latina. O conselho que eu dou é, obviamente, que não caiam de maneira nenhuma nesta tentação positivista de que objetividade significa neutralidade. Ser neutro nas nossas sociedades é estar do lado da opressão, da ditadura, do poder, um poder desigual, um poder injusto, que mata, que humilha, que marginaliza.

Sejam objectivos, mas não sejam neutros. Hoje temos instrumentos teóricos e epistemológicos. Todo este trabalho que tenho vindo a realizar e que designo como ‘Epistemologias do Sul’[3] desenvolve não apenas epistemologias, mas metodologias e pedagogias para os departamentos de ciências sociais. Estamos num trabalho colectivo porque pensamos que a única maneira que nós académicos temos hoje de poder servir as nossas sociedades é sentir a responsabilidade social de fazermos parte de um pequeno grupo de privilegiados que temos computador, que podemos fazer teletrabalho, ter acesso a livros, ter acesso a uma universidade e somos cada vez menos. E cada vez mais as populações não podem ficar em casa porque não têm sequer casa, ou se ficam em casa ainda ficam mais doentes porque não têm condições sanitárias, não tem dinheiro para comprar o gel, nem o sabão, e muitas vezes não tem sequer a água potável. Como é que se podem defender das pandemias? Nós temos que ter consciência destas condições e lutar com eles.

Jovens, façam como tenho vindo a fazer ao longo da minha vida: eu dedico 50% do meu tempo ao trabalho nas universidades e 50% aos movimentos sociais, organizações de base com quem trabalho, com quem desenvolvo um discurso que não é o discurso fechado das ciências sociais, mas que nos permite termos uma ideia deste mundo injusto em que estamos e dos caminhos que podemos encontrar e trilhar em conjunto. Nunca tenham fórmulas para nada. Devemos ser todos intelectuais da rectaguarda e não intelectuais de vanguarda. Não nos cabe indicar o caminho, mas seguir com aqueles que caminham. Acompanhá-los, estar com eles, correr riscos. É isto que eu penso que os jovens académicos devem fazer nos vossos países.

*Entrevista conduzida por Hotalide Cordeiro Domingos


*Boaventura de Sousa Santos nasceu em Portugal, em 1940. É um dos mais proeminentes cientistas sociais do mundo. Actua como Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal) e Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison (EUA). Foi também Global Legal Scholar da Universidade de Warwick e Professor Visitante do Birkbeck College da Universidade de Londres. É igualmente Director Emérito do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça. De 2011 a 2016, dirigiu o projecto de investigação ALICE - Espelhos estranhos, lições imprevistas: definindo para a Europa um novo modo de partilhar as experiências o mundo, um projeto financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC), um dos mais prestigiados e competitivos financiamentos internacionais para a investigação científica de excelência em espaço europeu. Tem trabalhos publicados sobre globalização, sociologia do direito, epistemologia, democracia e direitos humanos. Os seus trabalhos encontram-se traduzidos em espanhol, inglês, italiano, francês, alemão, chinês e rom


Notas

[1] As epistemologias do Sul dizem respeito à produção e validação dos conhecimentos ancorados nas experiências de resistência e luta dos grupos sociais que tem experimentado injustiças, opressões e destruições sistemáticas praticadas pelo capitalismo, colonialismo e patriarcado.

[2] Santos, Boaventura de Sousa; Van-Dúnem, José Octávio Serra (orgs.) (2012), Sociedade e Estado em construção: desafios do direito e da democracia em Angola. Luanda e justiça: pluralismo jurídico numa sociedade em transformação - Vol. I.; Gomes, Conceição; Araújo, Raul (orgs.) (2012), A Luta pela relevância social e política: os tribunais judiciais em Angola. Luanda e Justiça: Pluralismo jurídico numa sociedade em transformação- Vol. II.; Meneses, Maria Paula; Lopes, Júlio (orgs.) (2012), O Direito por fora do Direito: as instâncias extra-judiciais de resolução de conflitos em Luanda – Vol. III, publicados pela editora Almedina, Coimbra.

[3] O objectivo das epistemologias do Sul é permitir que os grupos sociais oprimidos representem o mundo por si mesmos nos seus termos, pois somente assim serão capazes se mudá-lo de acordo com as suas próprias aspirações.

 

 

 

 

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