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O DILEMA DO HOLOCAUSTO E SEUS IMPASSES

27 de janeiro de 2021

A ONU instituiu o dia 27 de janeiro como data internacional em memória das vítimas do holocausto, para prestar homenagem a estas, afim de lembrar a humanidade que eventos desta natureza não voltem a repetir-se no mundo.

É uma data que tem servido de reflexão sobre a crueldade que muitos judeus viveram sob o regime nazista, que lhes impôs duras sanções, perseguições e reduziu a sua humanidade em nada. Adolf Hitler encarava-os como as pessoas que estavam a corroer a Alemanha. Para ele, eram purgas que deveriam ser extintas. As documentações sobre o holocausto atestam a tamanha sanguinolência que foi este sistema de mortes e torturas.

A grande questão é que esta homenagem às vítimas desta barbarie é acompanhada anualmente por um inconveniente, ou melhor, por uma contenda que põe em causa não só a instituição da data em si, mas aquilo que são as reivindicações do povo judeu de reparação moral dos males que sofreram durante o nazismo.

Depois de alguns anos desta barbárie à humanidade, em especial contra o povo Judeu, surgiu uma corrente de negação veemente da existência do holocausto – a que chamaremos doravante “negacionistas”. Para eles, o holocausto é uma propaganda dos sionistas com vista a obter legitimidade de fundar uma entidade política soberana, o Estado de Israel. Os negacionistas defendem que o holocausto foi uma invenção para que a comunidade internacional se solidarizasse com os judeus e fosse “concedido” um território que albergaria todos os sionistas interessados em edificar o seu Estado para que não voltem a ser perseguidos em terras estrangeiras, ou que não vivam como párias em diversas partes do mundo.

Existem dois tipos principais de negacionistas: Os de Extrema-Direita e os Conspiracionistas. Apesar da linha de concordância ser a mesma (da não existência do holocausto), eles são díspares e não comungam nos seus princípios de identificação basilar, portanto cada grupo tem a sua base de argumentação.

Os de Extrema-Direita são, no fundo, na maior parte dos casos, neonazistas ou simpatizantes de Adolf Hitler. Destacando-se o historiador David Irving, que além das suas pretensões políticas frustradas, escreveu alguns trabalhos, tendo como o mais influente a obra “Hitler´s War” (A Guerra de Hitler), na edição de 1991, no qual, com base no relatório de Fred Leuchter, defende que não há dados ou provas que atestam a existência do holocausto cometido pelos nazistas, tal como a história se nos apresenta. Esta posição é tomada como uma forma de desbastardar as ideias de Adolf Hitler. Porquanto, o holocausto é a grande mancha negra da sua liderança. Sendo que outras questões, como invasão a outros países, muitos políticos a nível da história da humanidade, incluindo os líderes dos países que derrotaram Hitler (Estados Unidos, França, Inglaterra, por exemplo), também realizaram. Mas não ficaram diabolicamente manchados a nível da história como o Hitler. Por conseguinte, defender as ideias de Adolf Hitler sem criar argumentos contra o holocausto ou negar o holocausto, é incorrer para uma prática suicida. Por esta razão, antes de defender as ideias do ditador nazista, eles procuram desfazer-se daquela mancha negra da sua figura de proa.

Os Conspiracionistas são entusiastas das teorias de conspiração. Eles dizem que o povo judeu sempre inventou historietas como forma de se autenticar no mundo. No fundo, defendem os Conspiracionistas, eles (os judeus) sempre tiveram poder, sempre dominaram tudo e todos; eles são os donos das principais cadeias televisivas do mundo, são os donos dos principais bancos financeiros do mundo. Inventaram esta história do holocausto, seguindo um cunho religioso, para terem um espaço somente deles, mas que não fossem vistos como se tivessem a invadir um território pertencente a outro povo. Mas que fosse visto como uma concessão que a humanidade deve fazer ao povo judeu, em função dos horrores que lhes foram imposto pelo regime nazista.

Por isso é que esta questão deve ser vista com muita cautela, pois este negação do holocausto tem implicações profundas que devem ser tidas em conta.

i) Põe em contenda as bases fundacionais da civilização ocidental: Negar os pilares de legitimação do Estado de Israel atual é negar uma das bases da civilização Ocidental: O Cristianismo. Ou seja, quando se nega a legitimidade do povo de Israel, está a se negar a autenticidade de umas bases do Ocidente enquanto civilização. Neste caso, se as alegações do povo judeu são falsas, portanto, aquilo que constitui a principal base de organização societal da civilização Ocidental, que permitiu o seu desenvolvimento a nível da história, está errada, consequentemente, o Ocidente foi contruído em cima de erros.

ii) A segunda grande implicação é que negar o holocausto legitima qualquer discurso de ódio contra minorias étnicas. Porque, o ódio de Hitler contra os judeus é evidente no Main Kampf, assim como em vários discursos seus. O líder nazista fez questão de externalizá-lo sempre. Por exemplo, na sua obra, Hitler revela que os judeus (fossem sionistas ou judeus liberais) despertavam-lhe nojo. Adolf Hitler acrescentava que “a tão proclamada pureza moral desse povo (…) era uma questão discutível. Que eles não eram amantes de banhos podia-se assegurar pela simples aparência. Infelizmente não raro se chegava a essa conclusão até de olhos fechados, Muitas vezes, posteriormente, senti náuseas ante o odor desses indivíduos vestidos de caftan. A isso se acrescentem as roupas sujas e a aparência acovardada e tem-se o retrato fiel da raça”.

Portanto, este discurso é claro. Se quando não estava no poder manifestou o seu ódio, porquê é que não meteria em prática logo após chegar no poder? Este tipo de cenário faz com que as pessoas possam dizer qualquer tipo de barbaridades contra as minorias, desde que nunca as faças mal, é normal, é liberdade de expressão. Razão pela qual, negar o holocausto é defender discursos de ódio contra minorias.

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