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EFEITO TRUMP E A CONTENÇÃO DO ANTI-ESTABLIHSMENT

21 de janeiro de 2021

Pelo que lemos na maioria dos jornais ou assistimos na televisão, Donald Trump é um obtuso. Na verdade, uma olhada básica no seu Twitter pode levar a esse entendimento. É o tipo de presidente sobre o qual as comédias americanas já nos alertavam e não sabíamos que era um alerta. Mas é também a representação, como já foi profundamente abordado por vários analistas, de uma fúria anti-establishment.

Trump, de fato, representou ao longo de seu mandato uma ruptura sistêmica com a política americana convencional. Representar o anti-establishment pressupunha uma série de ações sem precedentes. Portanto, orientou a política (domestica e externa) americana longe dos padrões a que estávamos acostumados

Em vez disso, a maior potência ocidental e internacional começou a exigir uma reformulação da ordem internacional atual, implicando no choque ou rompimento de antigas alianças com seus parceiros (que tiveram que se adaptar, apesar de não compactuarem com o antigo Presidente dos Estados Unidos); uma posição mais dura contra a China, entendida pelo governo Trump como a maior ameaça à hegemonia dos EUA; o descrédito de certas organizações internacionais (incluindo a ONU ou especificamente algumas agências) e acordos, como o do clima, assinado em 2015; ataques a grandes corporações mediáticas (New York Times, Washington Post, Fox News e CNN, etc.); e linguagem politicamente incorreta, não convencional, às vezes apelando directa ou indirectamente a ações contrárias aos preceitos democráticos que os EUA costumam a exaltar com muito orgulho, como as que recentemente incitaram a invasão ao Capitólio.

Ontem, após uma série de convulsões e violações das tradições protocolares, foi o último dia de Trump como presidente da maior potência mundial e residente oficial da Casa Branca. Não obstante a essa aparente loucura, Trump tem seus méritos que devem ser reconhecidos. Sua ação anti-establishment significou fazer algo totalmente impensável e do qual ele se sente tremendamente orgulhoso, como demonstrou no seu último discurso: Não começou nenhuma guerra em outro Estado, ao contrário dos seus antecessores. Este fato é mais admirável quando olhamos para as previsões que o apresentavam como o estadista perfeito para iniciar a terceira grande guerra à escala global.

Trump se considera um pacifista. Ele entende que merecia o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços pela desnuclearização na Península coreana, e seus apoiantes lançaram uma campanha com esse propósito.

É verdade que apesar desse mérito - de não ter começado nenhuma guerra no seu mandato – na Administração Trump também houve ações próprias da maior potência do mundo, ou seja, de interferência nos processos políticos internos de outros Estados, como nos casos paradigmáticos de Venezuela, onde não conseguiram impor sua vontade de colocar Guaidó no lugar de Maduro; e em Hong Kong, onde os protestos em massa, apesar de enviarem uma forte mensagem a Pequim, não mudaram necessariamente o rumo do ambiente político daquele território; bem como tensões diplomáticas e militares entre os Estados Unidos e outros países que se intensificaram em algumas partes do mundo (principalmente com a China e o Irão). No entanto, inequivocamente, esta foi de longe a administração americana que menos se posicionou de forma imperialista na história contemporânea.

É um fato que será altamente valorizado na avaliação subsequente dos Estados do Terceiro Mundo (especialmente de África e o Médio Oriente), especialmente se o sucessor de Trump, Joe Biden, um conservador no tocante a política externa, actuar no quadro dos padrões que dele se espera neste capítulo - destacando a maciça ingerência nos assuntos internos de outros países, como quando foi Vice-Presidente de Obama (veja o caso Primavera Árabe); e a invasão militar em outros Estados.

O anti-establishment é muito poderoso nos Estados Unidos e tudo indica que continuará a ter grande influência no curso dos acontecimentos na política doméstica daquele país e mundialmente. Trump não pretende parar de agir. Apesar do fim de seu mandato como Presidente dos Estados Unidos, o seu capital político é imenso e está longe de perecer - na verdade, ele foi o candidato derrotado com mais votos em toda a história americana. E parece que pretende perseguir seus objetivos de lutar pelo poder.

No seu último discurso como estadista, o então Presidente referiu que o movimento que ele inaugurou está apenas começando. Segundo o Wall Street Journal, Trump pretende criar um partido político alternativo. Deste modo terá mais expressão e poder de decisão para continuar suas ações como líder da oposição e depois se candidatar nas eleições de 2024, pois corre o risco de ser abafado com o tempo e deixado de lado pela maioria de seus aliados importantes no Partido Republicano.

Os Estados Unidos estão divididos. O mandato de Biden promete ser intenso, tanto pela velocidade que urgem as reformas para que surtam os efeitos desejados, quanto pela antecipação que pretender-se-á às acções do anti-establishment - que promete vir com tudo nas próximas eleições.

Com o soft power constrangido, depois de toda a campanha de descrédito de Trump (antes, durante e depois das eleições), os Estados Unidos devem passar por um período de reconstrução de sua credibilidade internacional e investir consideravelmente na Diplomacia Pública, porque o orgulho americano que Hollywood tanto massificou - dos EUA como “a maior democracia do mundo”, “o mais credível dos sistemas”, “o legitimo juiz e polícia do mundo” - foi abalada pela atuação de Trump como presidente, especialmente pelas recentes suspeitas e críticas dirigidas a instituições essenciais à democracia. Contudo, de certa forma, o efeito Trump foi importante para repensar a questão da moralidade internacional dos EUA. A maior potência mundial sempre nos habituou à sua posição de referência dos pilares da democracia liberal, apresentando-os como elementos legitimadores da sua ética de intervenção ou ingerência noutros países para supostamente “promover valores democráticos”. É neste sentido que um conjunto de instituições e iniciativas, como o National Endowment for Democracy (que financiou ativistas na Primavera Arabe), a Millenium Challenge, entre outras, foram criadas.

Há uma necessidade preemente de reformular a relação entre os Estados Unidos e os outros actores internacionais, sobretudo os Estados mais frageis, com menos maturidade e poder no sistema internacional. Os Estados Unidos têm a oportunidade de reformular a ordem internacional vigente, estabelecer relações de maior paridade e harmonia dos interesses. A têndencia anti-establishment será contida domesticamente com a reconfiguração da actuação da maior potência do mundo e reconfiuração da ordem internacional. Africa, assim como todo o terceiro mundo, precisa de ser empoderado.  

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